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O isolamento social dado pelo surgimento do novo coronavírus foi responsável por uma série de mudanças nas rotinas de toda a população. A adesão ao home office é uma dessas mudanças mais comuns. Esta é uma alternativa viável de manter-se trabalhando de forma remota, mas deve-se atentar às possíveis lesões neurais resultantes de pontos de tensão que esta nova forma de trabalhar pode desencadear. Por isso, acompanhe este texto e entenda como a pandemia pode influenciar nas lesões neurais. Porém, antes de tudo, vamos entender como o sistema nervoso funciona por si só. Vamos lá?

Lesões neurais e o sistema nervoso

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Nem tudo o que aprendemos nos livros se dá de forma tão perfeita na realidade. Para entender o mundo real, precisamos desmistificar algumas ideias que criamos até mesmo ao observar as ilustrações dos livros. Por exemplo, tratando da fisiologia do corpo humano, saiba que os axônios não são retos, eles se apresentam em forma espiral; raízes nervosas não tem uma saída tão direta do canal vertebral, pois por vezes se angulam e, inclusive, algumas patologias podem advir deste detalhe. Além disso, as três bainhas de tecido conjuntivo (endoneuro, perineuro e epineuro) não se unem com as três meninges (pia mater, dura mater e aracnóide), tal como é ensinado nas aulas de anatomia.

Mas uma coisa é certa: sabemos sim o quanto o sistema nervoso é sensível às alterações de oxigênio. Essas alterações são determinantes para se evitar alterações metabólicas neste sistema, mesmo que este consuma apenas 20% do oxigênio presente na circulação sanguínea.

A circulação de oxigênio no sistema nervoso

A movimentação humana é muito complexa, e para que o sistema nervoso não sofra falta de suprimento sanguíneo, existem vasos extrínsecos suprindo artérias nutridoras que se dirigem para dentro dos nervos. Estes vasos se chamam vaso nervorum.

Desta maneira, este sistema se torna mais seguro, porque mesmo que a condição extrínseca falhe, existe um mecanismo intrínseco que impede que o neurônio fique sem oxigênio. Então, isso acontece pois a condução do impulso nervoso e toda a movimentação dentro do citoplasma ficaria prejudicada caso houvesse uma falha extrínseca.

Em condições normais, podemos dizer que o sistema vascular intraneural é muito pouco usado, existem sistemas colaterais. Porém, não podemos deixar de afirmar que alongamento e compressão afetam este sistema de uma forma que ainda não é possível se explicar totalmente. Contudo, já foi avaliado que a manutenção do alongamento em 8% interrompe o fluxo e em 15% pode gerar um bloqueio total do fluxo. 

Estiramento Neural: o que é e como acontece?

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Quando ocorre o estiramento neural, os vasos sanguíneos são estrangulados comprometendo, assim, o fluxo intraneural e deteriorando a função nervosa. Mas, se este alongamento for discreto, além dos limites de proteção por breve período, a função nervosa voltará rapidamente ao normal. Entretanto, se a tensão sobre o nervo for severa ou sustentada por longo período de tempo, as alterações na função nervosa serão permanentes.

O neurônio é uma célula como todas as outras, ou seja, ele contém substâncias presentes dentro do seu citoplasma. Além disso, ele é mais sensível à presença de oxigênio. Também, devido ao fato de o axônio ter um tamanho grande, às vezes com quase um metro de extensão, ele precisa de um movimento intracelular especializado.

Assim, dentro do axônio do neurônio temos ribossomos, microtúbulos, retículo endoplasmático liso e neurofilamentos com um material semelhante a actina, que são estruturas necessárias para este transporte.

Transporte para o tecido alvo

Do corpo celular para o tecido alvo, existe um transporte lento e um rápido, que chamamos de transporte axonal anterógrado. Além disso, do tecido alvo para o corpo celular existe o transporte axonal retrógrado, portanto, temos o tempo todo um transporte bidirecional.

O transporte rápido para o tecido alvo carrega neurotransmissores e vesículas transmissoras necessárias na região sináptica. Já o transporte lento no sentido do tecido serve para a manutenção da estrutura do axônio. Porém, o transporte retrógrado também é muito rápido, levando vesículas recicladas e materiais necessários ao desenvolvimento neural, contribuindo para o seu crescimento.

Então, imagine que qualquer alteração de compressão ou estiramento mantida por um longo período pode ocasionar a diminuição da velocidade deste transporte, e com isto, temos toda uma alteração do sistema nervoso. Micro lesões no sistema nervoso também deveriam ser discutidas e apresentadas a estudantes de fisioterapia, desde a sua graduação. Logo, isto possibilitaria a reabilitação de muitos pacientes que sofrem de dor devido este tipo de disfunções.

As interfaces do sistema nervoso

Sabemos que muitos conceitos apresentados até agora se tratam de novas descobertas da neurociência ou evidências anatômicas que precisam ser levadas em conta, uma vez que podem ser comprometidas durante o movimento.

Portanto, para que o movimento humano ocorra em plenitude é necessário que dois sistemas biomecânicos caminhem de forma aliada: o do sistema nervoso e das interfaces que o rodeiam. Observe que a mobilidade do sistema nervoso é ao mesmo tempo independente e dependente de onde ele esteja passando, ou seja, de qual interface articular, muscular, fascial, que ele possa estar atravessando.

A articulação zigapofisária é um destes exemplos de interface. Esta interface fica próxima às raízes nervosas, sendo considerada uma região de pouquíssima proteção frente a traumas mecânicos ou disfunções bioquímicas.

Algumas regiões do corpo já são propícias a lesões, são locais onde o sistema nervoso passa por regiões estreitas, tais como túneis e saídas dos plexos. Contudo, quando as articulações se espessam formando osteófitos, também temos risco de lesão e até mesmo diante do espessamento de alguns ligamentos causada por uma sobrecarga laboral.

Quanto o sistema nervoso puder se adaptar ao movimento, com certeza ele fará. Sua dificuldade vem do fato de ser uma estrutura contínua desde o SNC até o SNP. Porém, ele possui estruturas elásticas que permitem até certo ponto assegurar mobilidade, sem interferir em seu funcional integral.

Estreitamento da biomecânica neural

Algumas condições patológicas que produzem edema, compressão local como até mesmo o gesso, também podem contribuir para o estreitamento da biomecânica neural. Assim, este estiramento gera o que denominamos de tensão neural adversa, ou seja, estruturas extraneurais que interferem causando forças de tensão no sistema neural.

Sendo assim, temos no corpo regiões de tensão, locais inclusive onde o movimento neural é mínimo ou quase nulo. Logo, estas regiõesl denominamos de pontos de tensão. São as áreas de C6, ombro, cotovelo, T6, L4 e joelhos.

Certamente estes pontos de tensão são locais com predisposição à lesões neurais, principalmente dada a influência do posicionamento dos membros, ou seja, nas extremidades corporais. Isso acontece pois a posição dos membros pode aumentar o grau de tensão imposto.

Tensão neural na pandemia: consequências do home office

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Compreendendo estes locais de tensão natural do sistema nervoso, considere agora o que aconteceu durante a pandemia com o trabalhador de home office. Observe o impacto de horas sentado, com sobrecarga neural na região de L4, com frequência ocasiona dor e desconforto ao trabalhador.

Bem como afirmam Losekann e Mourão (2020), o coronavírus abalou a sociedade contemporânea e fez com que todas as relações humanas se reestruturarem no período de semanas.

O tele trabalho virou exigência e urgência e teve que ser adaptado em casa, no meio de ambientes desapropriados, sem mobília ergonômica, exigindo do colaborador a famosa “resiliência”. Todos tivemos que aprender “a toque de caixa” a nos adaptarmos com novas tecnologias, interagir a distância e a administrar o tempo entre atividades escolares, domésticas e trabalho. 

Sendo assim, alterações de comportamento foram um grande agregado nesta pandemia. Vimos pessoas com perda de sono, falta de apetite, crises de ansiedade e alteração rápida de humor, que ao longo dos meses evoluíram até mesmo para crises de pânico e depressão. E, é claro, aumentou significativamente o índice de pessoas acometidas por lesões neurais resultantes de pontos de tensão.

Como o nosso corpo pode sofrer com o home office?

Não somente o corpo mental sofreu os impactos da pandemia, mas também o corpo físico. A palavra “dor nas costas” ganhou força na internet, como uma das maiores buscas já vistas. Cadeiras ergonômicas mais adaptadas foram a saída imediata para alguns colaboradores, porém a diligência das dores incutiu no colaborador o olhar frente a importância de exercícios na reabilitação dos seus sintomas.

Fisioterapeutas se reinventaram e aprenderam a desenvolver o seu trabalho sem o uso das mãos, tendo apenas a tela do celular à sua frente para atender grande demanda de pacientes. Podemos considerar que o crescimento da técnica de mobilização neural foi algo que surpreendeu e ajudou muitos profissionais que precisam atender a distância.

Segundo Butler (2003), para o nervo isquiático, o simples movimento de estar sentado e levantar-se ocasiona pressão sobre ele. A mesma interpretação clínica deve ser referida aos membros superiores; o nervo mediano é deslocado em torno de 2-3 cm em alguns movimentos dos braços, porém uma simples inclinação da cabeça de forma contralateral ao membro mobilizado, promove um aumento enorme da pressão sobre o nervo.

Má postura no home office

Um dado clínico relevante sobre esta análise é que pessoas quando sentam com uma postura cifótica e ficam com a região cervical em extensão ao olhar para a frente, colocam sobre tensão o tronco simpático. Entretanto, saiba que esta postura é muito mais comum no dia-a-dia das pessoas, mais do que podemos imaginar.

Sempre que pensamos em lesões nervosas, nos vem à mente lesões extensas. Mas a partir de hoje te proponho a começar a se ater às lesões menores deste sistema e a tratá-las, como as lesões neurais resultantes de pontos de tensão. Contudo, saiba que para isto é preciso compreender o que este tipo de lesão pode gerar no seu corpo.

As consequências das patologias intra e extraneurais são primeiramente fisiopatológicas (o que gera sintomas) e depois patomecânicas (o que gera falta de mobilidade e elasticidade).  Ambas alteram a biomecânica neural, porém podem ser tratadas por movimentos específicos.

Conclusão

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Concluímos, assim, que não precisamos necessariamente ter um trauma sobre o sistema neural para termos uma lesão, esta é uma visão do passado. Sabemos através da evolução da neurociência que má postura ou contração muscular, que é realizada de forma repetitiva, podem causar estas lesões.  Saiba que o mecanismo de mínimas lesões neurais resultantes de pontos de tensão pode vir de interfaces próximas, até mesmo um edema pode gerar disfunções.

Fisioterapeutas sempre souberam tratar e avaliar muito bem as grandes lesões nervosas, porém o que pouco é discutido é a importância da análise das lesões nervosas menores. Porém, estas lesões menores podem ser causadoras de dor e falta de movimento, e podem ser tão restritivas quanto as maiores.

Urge, portanto, a necessidade de uma nova visão dos fisioterapeutas frente ao comprometimento do sistema nervoso e nas lesões neurais resultantes de pontos de tensão. Assim, da mesma maneira, é necessária uma nova postura na avaliação e tratamento das disfunções musculoesqueléticas.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, A. P. B.; LEAL, S.S. Analise da eficácia da mobilização neural no nervo isquiático sobre ganho de ADM. ConScientiae Saúde, 2015: 14(3):463-469.

BUTLER, D. S. Mobilização do sistema nervoso. Barueri: Manole; 2003.

BUTLER, D.S. Adverse mechanical tension in the nervous system: a model for assessment and treatment. Australian Journal of Physiotherapy, 1989; 35: 227-235.

JUNIOR, O. H. F. de; TEIXEIRA, Á. H. Mobilização do Sistema Nervoso: avaliação e tratamento. Fisioterapia em movimento, Curitiba, v. 20, n.3, p. 41 – 53, 2007.

LOSEKANN, R. G. C. B.; MOURÃO, H. C. Desafios do teletrabalho na pandemia COVID-19: Quando o home vira office. Caderno de Administração, Maringá, v.28, Ed. Esp. Jun, 2020.