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O comportamento motor é a análise do processo neuropsicológico de uma organização motora, que vai desde a construção, desenvolvimento até o aprendizado motor.

O profissional do movimento vem buscando cada vez mais entender os processos biológicos, neurológicos e fisiológicos que compõem o movimento. Mas, além disso, ele também busca compreender todos os aspectos que influenciam o mesmo e, consequentemente, todas as implicações desses fatores nas disfunções.

A mudança de paradigmas traz ao profissional não mais uma visão de grupos musculares isolados ou até mesmo a visão de movimento como uma ação mecânica. Na verdade, o que surge é uma visão pautada no sujeito, com análise de todos os processos físicos enquanto sistema e em suas correlações com aspectos emocionais, sociais e psíquicos do indivíduo.

Nesse sentido, temos que a análise do comportamento motor é embasada em três dimensões que a constituem. São elas: controle motor, desempenho motor e aprendizado motor. Por isso, começaremos entendendo o que é cada uma dessas dimensões para compreender a complexidade do comportamento motor. Vamos lá?

O controle motor

O controle motor constitui a construção do movimento, que vai da produção ao controle do mesmo no sistema nervoso central e suas conexões. Por isso, ele atua coordenando o movimento, facilitando-o e proporcionando informações sensoriais.

A partir disso, temos dois tipos de movimento. O primeiro é o movimento voluntário, que necessita de uma tomada de decisão e remete ao um mecanismo de retroalimentação de estruturas centrais como o córtex motor e cerebelo. Já o segundo é o movimento reflexo, que acontece a nível medular.

O desempenho motor

O desempenho motor, por sua vez, está relacionado aos aspectos físicos, à capacidade de realizar tarefas e suas aptidões físicas que favorecem o movimento. Estas podem ser: amplitude de movimento, força muscular, flexibilidade, coordenação e equilíbrio.  O desempenho motor é formado por quatro fases:

  • A fase motora reflexiva, que se inicia na vida intra-uterina e é caracterizada por movimento reflexos e involuntários;
  • Fase motora rudimentar, que vai substituindo os movimentos reflexos por comportamentos motores voluntários (apesar disso, ainda são movimentos grosseiros);
  • A terceira fase, a fase dos movimentos fundamentais, traz o surgimento de padrões fundamentais como correr, pular, saltar;
  • E a fase de movimento especializado, que é caracterizada pelo refinamento do movimento.

O aprendizado motor

Outra dimensão do comportamento motor é o aprendizado motor, que perpassa por todas as dimensões anteriores. O aprendizado motor constitui o processo de aspectos cognitivos e motores que levam a uma mudança no comportamento motor. Existem três estágios de aprendizado motor. Entenda cada um abaixo.

O primeiro estágio do aprendizado motor é o aprendiz ou cognitivo, que objetiva a tarefa desenvolvendo estratégias para sua execução. É um período que exige bastante de fatores cognitivos como a atenção.

Após essa etapa vem o estágio associativo, onde o indivíduo já selecionou a estratégia de executar a tarefa e agora se faz necessária concentração para executá-la. Esse estágio é marcado pelo aperfeiçoamento de um determinado padrão e refinamento da habilidade para execução da tarefa.

O último estágio do aprendizado motor é o autônomo, no qual o movimento já se encontra automatizado, ou seja, já existe uma habilidade motora que exige um baixo grau de atenção para o desempenho. Um exemplo seria a pessoa conseguir conversar enquanto anda de bicicleta.

Nesse contexto, é importante ressaltar que em todas essas etapas do comportamento motor o processo de aprendizado é inteiramente influenciado pelo meio. Assim, temos que o movimento é também resultado das vivências e experimentações de cada pessoa. Portanto, o aprendizado motor é individual, intransferível.

A importância de compreendermos complexidade do comportamento motor

Na prática profissional, o saber de todo o processo que compõe o comportamento motor traz ao profissional do movimento um aprimoramento de olhar. O conhecimento de cada etapa pela qual seu paciente está passando é essencial, bem como a condução e o comando adequado para cada execução de movimento.

Esses pontos, além de proporcionar ao indivíduo uma evolução de movimento pautada em conhecimentos científicos, também lhe dá segurança em cada etapa até a formulação da habilidade motora. Como consequência, ele terá um movimento mais lapidado e aprimorado que vem do seu aprendizado motor. 

Assim, é essencial que entendamos a complexidade do comportamento motor. Dessa forma, torna-se possível lidar com nossos pacientes de maneira segura. Entenda abaixo esses fatores.

A complexidade do comportamento motor

Toda essa evolução vem de centenas de conexões neurais que formam os mapas neuronais. A cada movimento voluntário gerado, o Sistema Nervoso central gera informações que saem do córtex e vão para o cerebelo e órgão efetor.

O cerebelo, então, se conecta com o córtex e recebe informações do movimento. Ele é o responsável pelo “controle de qualidade”, ou seja, como foi a ideia do movimento e como esse movimento está sendo executado. Na medida em que essa retroalimentação é constante, um movimento refinado e aperfeiçoado é gerado.

Como citado anteriormente, inúmeros fatores influenciam no comportamento motor. Entre eles temos a história e o estilo de vida, o contexto social, genética, relações ambientais, emocionais, entre outros. Com isso percebemos que há uma inter-relação de aspectos, sejam eles físicos, ambientais ou sociais. Todos esses aspectos moldam e formam a complexidade do comportamento motor.

Como trabalhar levando a complexidade do comportamento motor em consideração

Para a intervenção assertiva, se faz necessário que o profissional compreenda, por exemplo, qual a importância da repetição de um determinado movimento. Além disso, é importante compreender como ocorre a plasticidade neural e quais estímulos são adequados para a formulação do aprendizado motor – e consequentemente para a melhora da funcionalidade – do paciente.

Todas essas questões perpassam não apenas o conhecimento de como o movimento é construído, planejado e executado, mas também por um olhar clínico/funcional sistematizado.

Em pacientes neurológicos, por exemplo, é fundamental estimular a plasticidade cerebral do mesmo para sua evolução. Essa é a essência de todo o tratamento.

Ainda, o aprendizado motor pode tornar-se mais lento, necessitando de estímulos adequados para potencializar a funcionalidade. Em casos nos quais há o comprometimento de uma área cerebral, o estímulo a reconexões e a formação de novos mapas neuronais que assumam a função da área lesionada potencializa a restauração da função.

Esses conhecimentos costumam ser associados ao atendimento de pacientes neurológicos. Contudo, vale ressaltar que quando se trabalha com movimento, o comportamento motor e todas as suas dimensões estão sempre presentes. 

Quando se está em uma sessão de pilates, por exemplo, o profissional estimula a construção, a lapidação e o processo de repetição do movimento. Assim, a construção desse movimento é um aprendizado motor que irá gerar mudanças naquele indivíduo. Consequentemente, seu comportamento motor será modificado.

Nesse contexto, a avaliação pode ser uma grande aliada para lidar com a complexidade do comportamento motor. Vamos entender o porquê?

A avaliação como ponto chave

A avaliação é primordial para que o profissional entenda como um movimento é gerado, o que pode ser trabalhado naquele corpo e quais estímulos serão dados para a formação de mapas neuronais.

Com uma avaliação minuciosa, o profissional pode analisar todos os aspectos envolvidos na disfunção, entendendo todos os mecanismos físicos, como eles se apresentam no movimento e como essas conexões compõem esse movimento.

Além disso, também torna-se possível entender as influências dos aspectos emocionais, sociais e ambientais nessa disfunção. Através de uma avaliação sistematizada, os objetivos com o paciente tornam-se mais claros, o que gera condutas mais assertivas. Vale ressaltar a importância de sistematizar a avaliação e de colocar em prática os dados coletados durante seu tratamento.

É importante que a complexidade do comportamento motor seja analisada de forma processual, ou seja, que a avaliação não seja o único momento de análise desse movimento e de todos os fatores que o influenciam. Por isso, analise seu paciente desde o momento que ele entra no seu ambiente terapêutico.

Avaliação da complexidade do comportamento motor na prática

Para colocar a avaliação em prática, comece percebendo como seu paciente se relaciona com as pessoas, como ele responde aos seus estímulos, entenda o cotidiano dele, valorize o que ele te traz de informação ou de execução de movimento. Esses dados são essenciais para entender a disfunção e para elaboração do plano terapêutico.

Nesse sentido, temos que o terapeuta deve estar atento a sinais do paciente em toda essa análise da complexidade do comportamento motor. Para isso, o profissional deve monitorar aspectos cognitivos como:

  • Atenção;
  • Concentração;
  • Resposta ao estímulo;
  • Associação de aspectos motores e cognitivos;
  • Se há alguma incoordenação ou desequilíbrio entre o estímulo e resposta (e quando a resposta não é esperada, entender o porquê daquele retorno).

Ainda, ele deve estar alerta em relação à população idosa, na qual as funções cognitivas necessitam ser potencializadas devido ao próprio processo de envelhecimento. Portanto, os estímulos deverão ser pautados na associação de elementos motores e cognitivos, gerando uma mudança no comportamento motor.

Dessa forma, reflexões acerca do controle motor, desempenho motor, aprendizado motor e o alicerce de transformações no comportamento motor conduzem a uma prática e experiência pautadas em ganhos permanentes de capacidades e funções. Compreende-se, assim, que a aprendizagem motora ocorre através do movimento e da lapidação do mesmo, constituindo-se como essência do processo terapêutico.

Conclusão

Analisando os aspectos apontados acima, pode-se perceber com facilidade a complexidade do comportamento motor. A partir desse conhecimento, temos que o profissional do movimento deve repensar sua intervenção de forma a utilizar as ferramentas necessárias para que a aprendizagem motora ocorra de acordo com as fases de desenvolvimento e maturação daquele paciente, respeitando seus limites.

Com a compreensão da complexidade do comportamento motor e todas as suas dimensões, a análise e o trabalho com o movimento humano perpassa ao reducionismo de um deslocamento no espaço e tempo.

Dessa forma, seu entendimento enquanto sistema de conexões é favorecido e os valores do movimento são realmente incorporados considerando as limitações e características de cada indivíduo.

Referências bibliográficas

TANI, GO (EDIT.). Comportamento motor: aprendizagem e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008

Ferreira, Bianca Isabela Acampora e Silva – Neurociências & aprendizagem: metacognição, criatividade e competências para compreensão leitora. Bianca Isabela Acampora e Silva Ferreira. São Paulo: Pimenta Cultural, 2019. 445p.

SHUMWAY-COOK, A.; WOOLLACOTT , M. H. Controle motor : teoria e aplicações práticas. 2. ed. Barueri : Manole, 2003