Junte-se a mais de 150.000 pessoas

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade!

Qual o seu melhor email?

Você sabe o que são vestibulopatias periféricas, quais são as principais e como realizar a reabilitação desses casos? Se você ainda não sabe ou quer se aprofundar no assunto, continue lendo esse texto!

Mas, primeiro, é preciso entender o funcionamento do sistema vestibular. Vamos lá?

O sistema vestibular

O equilíbrio corporal é dependente da existência de uma relação estável entre o indivíduo e o meio ambiente. Com a associação entre o sistema somatossensorial, visual e vestibular, podemos nos locomover e ter controle postural (ONISHI et al., 2013).

Como órgão periférico, o sistema vestibular fornece estímulos sensoriais ao sistema nervoso central (também conhecido pela sigla SNC) sobre a posição e o movimento do corpo e da cabeça em relação a gravidade. Esses estímulos são processados e combinados com estímulos oriundos do sistema visual e proprioceptivo, além do sistema motor, que contribui para o controle da cabeça e do corpo – bem como a coordenação dos movimentos (ONISHI et al., 2013).

Embora partilhem muitas características, a orientação espacial é um processo de percepção, enquanto o controle postural é um processo motor. A integração dos dois se dá principalmente nas aferências vestibulares, proprioceptivas e somatossensoriais (ONISHI et al., 2013).

A constituição do sistema vestibular

O sistema vestibular é composto por três canais semicirculares (CSC) e dois órgãos otolíticos: o utrículo e o sáculo. Os CSC são sensíveis às acelerações angulares; os órgãos otolíticos, por sua vez, são sensíveis às acelerações lineares e à gravidade. Essas estruturas são preenchidas por um fluido. Dessa maneira, elas “acompanham” os movimentos realizados pela cabeça, que ativam células ciliares para transmitir potências de ação pelo nervo vestibulococlear (VIII par) (JANUÁRIO; AMARAL, 2010).

Na parede do utrículo e do sáculo existe a mácula, uma estrutura composta por células ciliadas com substância gelatinosa onde ficam os otólitos (cristais de cálcio). A disposição do utrículo é horizontal e a do sáculo é vertical. Dessa maneira, a mácula detecta a orientação da cabeça no espaço independentemente da direção e da força (JANUÁRIO; AMARAL, 2010).

Os CSC se orientam na disposição anterior, posterior e lateral; em sua porção distal se localiza a ampola que contém a cúpula. No movimento angular, o líquido se desloca do canal para a ampola, que inclina a cúpula enviando informação ao SNC sobre as acelerações (JANUÁRIO; AMARAL, 2010).

As aferências dos CSC no nervo vestibular são sinalizadas por uma diferença na taxa de descarga de repouso, identificando uma rotação de cabeça mesmo quando não há o movimento. Isso explica a razão pela qual o paciente com hipofunção unilateral apresenta vertigem/tontura durante o repouso (ONISHI et al., 2013).

Os reflexos e o sistema vestibular

Os reflexos vestíbulo-ocular (RVO) e o vestíbulo-espinhal (RVE) são estimulados pelo SNC durante os movimentos da cabeça. A função do RVO é realizar a estabilização dos olhos no espaço durante movimentos da cabeça, efetuando movimentos oculares contrários ao da cabeça, mas na mesma velocidade e amplitude. Os planos de ação do RVO representam a área tridimensional em que o sistema vestibular e oculomotor são responsáveis.

Já o RVE, por sua vez, estabiliza a cabeça e mantém a postura ereta em relação à gravidade por meio de estímulos que ativam a musculatura cervical e corporal (ONISHI et al., 2013).

Os tratos vestíbulo-espinhais (TVE) são originados por sinapses neuronais devido a estímulos vestibulares e motores, estabelecendo uma inter-relação entre eles. Sua função principal é a regulação do tônus muscular de todo o corpo, principalmente das estruturas responsáveis pelo equilíbrio corporal (ONISHI et al., 2013).

O bom equilíbrio corporal está vinculado com a execução correta de todos esses sistemas que se integram. A ausência de equilíbrio gera influências negativas aos indivíduos devido à redução da autonomia, às limitações funcionais e ao prejuízo no desempenho profissional (JANUÁRIO; AMARAL, 2010).

O que são vestibulopatias periféricas?

As vestibulopatias são doenças que alteram o equilíbrio corporal, sejam elas de origem periférica ou central.

O sintoma mais comum de tais patologias é a tontura, caracterizada pela insegurança durante a movimentação ou dependendo da posição do corpo. A tontura rotatória é denominada como vertigem; ela causa a sensação do corpo estar girando no ambiente ou do ambiente estar girando ao redor do corpo (MIYAKE et al., 2014).

A vestibulopatia se origina de alterações no sistema vestibular. Ela representa a maioria dos casos de alteração do equilíbrio, acometendo o labirinto e o nervo vestibular (MIYAKE et al., 2014).

Vestibulopatias periféricas: quais são as principais?

As vestibulopatias de origem periférica costumam caracterizar-se por quadros episódicos de vertigem associada a náusea, sudorese e vômito. Além disso, também podem haver alterações auditivas, como zumbido, diminuição da acuidade auditiva e plenitude aural. 

O paciente com alterações periféricas apresentará no exame físico sinais como nistagmo horizontal ou horizonto rotatório. Apesar disso, esse sintoma pode ser melhorado através da fixação ocular (MIYAKE et al., 2014).

A tendência de quedas em pacientes vestibulopatas é comprovada por exames de equilíbrio estático, o que pode ser compensado através da visão. A queda tende a ocorrer no sentido do labirinto normal para o lesado, se alterando mediante a posição da cabeça (PAULUCCI, 2005).

Em casos de vestibulopatias periféricas pode ocorrer o desvio do tronco e braços para o lado lesado; afetando também os olhos que se deslocam neste mesmo sentido lentamente e, em seguida, deslocam-se para o lado oposto de maneira brusca (PAULUCCI, 2005).

Veja abaixo quais são as principais vestibulopatias periféricas.

Vertigem postural paroxística benigna

Dentre as principais vestibulopatias periféricas está a vertigem postural paroxística benigna, conhecida pela sigla VPPB. Sendo a mais comum delas, é mais frequente na quarta década de vida, predominante no sexo feminino e de origem idiopática em 70% dos casos.

Essa patologia se caracteriza por crises de vertigem subjetiva ou objetivas. Nas crises subjetivas, a pessoa tem a sensação de que está rodando. Já nas crises objetivas, a pessoa tem a sensação de que objetos ou o ambiente estão rodando a seu redor (MIYAKE et al., 2014).

Doença de Ménière

Na doença de Ménière os sintomas surgir já aos 20 anos, com predominância unilateral. Nela o paciente apresenta episódios recorrentes de vertigem, com duração de pelo menos 20 minutos, podendo durar até 24 horas. A vertigem é acompanhada por alterações auditivas como o zumbido e a perda de audição sensorioneural grave, e precedida por sensação de plenitude auricular. Ela também pode vir acompanhada por náuseas e vômitos (MIYAKE et al., 2014).

Cinetose

A cinetose, por sua vez, é uma vestibulopatia periférica comum em crianças. Ela é desencadeada pelo conflito de informações sensoriais, principalmente visuais e vestibulares, durante o movimento em função da aceleração corporal e estimulação optocinética. Seus principais sintomas são desconforto físico, aumento da salivação, tontura, palidez, sudorese, cefaleia, náuseas e vômitos (MIYAKE et al., 2014).

Existem diversas terapias que podem auxiliar no caso dessa vestibulopatia periférica e seus sintomas, que devem ser avaliados individualmente para que se determinem as melhores condutas. A aplicação da reabilitação vestibular de forma personalizada e bem orientada reduz os sintomas em aproximadamente 85% dos casos (MIYAKE et al., 2014).

Hipofunção vestibular unilateral

A hipofunção vestibular unilateral trata-se de uma vestibulopatia periférica unilateral que gera conflito sensorial e a sensação constante de rotação não corroborando com o movimento. Isso faz com que o paciente acometido pelo sintoma feche os olhos na expectativa de melhora. Ocorre, também, um conflito entre os sentidos esperados para o movimento e o que realmente é percebido. Devido à lesão unilateral, a aferência é ausente em um labirinto, fazendo com que o paciente mantenha imóvel a cabeça (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

Uma lesão vestibular unilateral agudizada provoca no indivíduo uma vertigem caracterizada como angustiante, nistagmo, perda do equilíbrio corporal. Os sintomas melhoram após alguns dias, sendo o nistagmo e o desequilíbrio superados com facilidade (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

A reversão de tais sintomas ocorre pela adaptação do vestibular central. Ele deve compensar a inatividade acarretada pela neuroplasticidade do SNC ao ativar as aferências sensoriais intactas do hemicorpo oposto a lesão, núcleos vestibulares e o cerebelo (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

A reabilitação das vestibulopatias periféricas e a realidade virtual

A fisioterapia tem papel primordial no treino do equilíbrio em pessoas com instabilidade postural. Ela tem como papel impedir que as consequências associadas ao desequilíbrio aconteçam. Isso é feito por meio de condutas de fortalecimento muscular, treino da marcha, melhora postural, treino cognitivo-motor-sensorial e realização das manobras de reposicionamento das otocônias (MEIRELES et al., 2010).

Os indivíduos que sofrem dos sintomas das vestibulopatias periféricas necessitam de uma explicação clara sobre a alteração que possuem, as compensações e a reabilitação. Independentemente de a doença estar agudizada ou em um processo crônico, a reabilitação vestibular é eficaz – desde que ocorra colaboração do paciente (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

A reabilitação vestibular é capaz de proporcionar estabilização visual, melhorar a interação vestíbulo-visual durante a movimentação e aumentar a estabilidade estática e dinâmica durante conflitos sensoriais (ROGATTO et al., 2010). Além disso, ela também reabilitação tem como finalidade facilitar a capacidade do SNC de compensar as lesões vestibulares. A reparação da simetria funcional, depois de uma lesão vestibular unilateral, ocorre por meio da neuroplasticidade (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

A avaliação que antecede a reabilitação tem grande importância, pois é a partir dela que são compreendidos os sintomas e as alterações apresentados por cada paciente. Além da análise do equilíbrio, da postura e de vertigem, a avaliação verifica problemas secundários – como medicamentos em uso, por exemplo – para aprimorar a definição do protocolo de tratamento das vestibulopatias periféricas presentes (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

As vestibulopatias periféricas devem ser reabilitados por meio de exercícios que provoquem vertigem. Os movimentos devem incluir movimentos oculares, cefálicos e corporais que estimulem o sistema visual (BRONSTEIN; LEMPERT, 2010).

A reabilitação virtual tem sido evidenciada com efeitos positivos no tratamento de alterações posturais, motoras e do equilíbrio. A prática terapêutica potencializa resultados na estratégia de motivar a continuidade do tratamento (MENDES, 2015).

Conclusão

As vestibulopatias periféricas são doenças que podem causar diversos incômodos. Por isso, é importante saber quais são elas e seus sintomas, a fim de proporcionar uma reabilitação de qualidade aos pacientes acometidos por tais patologias.

A associação da reabilitação vestibular com a realidade virtual poderá promover ao paciente a prática da terapia interativa, desafiando a execução de exercícios que facilitariam o retorno às atividades diárias (MENDES, 2015).

Referências

BRONSTEIN A.; LEMPERT T. Tonturas: diagnóstico e tratamento uma abordagem prática. Rio de Janeiro: Revinter, 2010.

JANUÁRIO F.; AMARAL C. Fisiologia do equilíbrio. Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação, v. 19, n. 2, p. 31-37, 2010.

MEIRELES, A. E., PEREIRA, L. M. D. S., OLIVEIRA, T. G. D., CHRISTOFOLETTI, G., FONSECA, A. L. Alterações neurológicas fisiológicas ao envelhecimento afetam o sistema mantenedor do equilíbrio. Rev Neurocienc, v. 18, n. 1, p. 103-108, 2010.

MENDES F. A. S. et al. Pacientes com a Doença de Parkinson são capazes de melhorar seu desempenho em tarefas virtuais do Xbox Kinect®: uma série de casos. Motri., Ribeira de Pena, v. 11, n. 3, p. 68-80, set. 2015.  

MIYAKE M. A. M.; MIYAKE M. M.; SANTANA G. G. D.; OLSEN J. M. Vestibulopatias. Rev Bras Med, v. 71, n. 4, 2014.

ONISHI, E. T.; KASSE, C. A.; BRANCO-BARREIRO, F. C.; DONÁ, F. Avaliação e Reabilitação do Equilíbrio Corporal – Abordagem Interdisciplinar, 1ed. São Paulo – SP, 2013.

PAULUCCI B. P. Fisiologia da audição. R1-ORL-HCMUSP, 2005.

ROGATTO, A. R. D., PEDROSO, L., ALMEIDA, S. R. M., OBERG, T. D. Proposta de um protocolo para reabilitação vestibular em vestibulopatias periféricas. Fisioterapia em Movimento, 2010.