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O câncer é uma doença crônico-degenerativa considerada um problema de saúde pública no Brasil e no mundo, devido a alta incidência e mortalidade atribuídos. Logo, o diagnóstico precoce e os meios de reabilitação, física, social e psicológica são aspectos importantes no tratamento dessa doença. Tanto a hipótese do diagnóstico, a confirmação da doença, bem como o tratamento podem causar grandes impactos na qualidade de vida do indivíduo.

Há diversos tratamentos para o câncer como ressecções cirúrgicas, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e/ou imunoterapia sendo necessário, em muitos casos, combinar essas modalidades. Duas a cada três pessoas com câncer são tratadas com quimioterapia, e este tratamento tem benefícios como o aumento de sobrevida e com papel importante no controle da doença, considerada uma forma de tratamento potencialmente curativa, capaz de destruir células tumorais. Porém, a quimioterapia pode ser responsável por alterações na cognição dos pacientes à ela submetidos, e este é um tema que merece a devida atenção.

Entenda sobre a quimioterapia e seus efeitos colaterais

A quimioterapia é uma das formas de tratamento para combater o câncer, permitindo a destruição das células cancerosas e impedindo que elas cresçam e se multipliquem. No entanto, nesse processo, a quimioterapia pode afetar também outras células no organismo devido a sua toxicidade e causar inúmeros efeitos colaterais indesejáveis. Assim, dentre os principais efeitos colaterais ou toxicidades do tratamento quimioterápico estão as alterações hematológicas, gastrointestinais, cardiotoxicidade, hepatotoxicidade, toxicidade pulmonar, neurotoxicidade, disfunção reprodutiva, toxicidade vesical e renal, alterações metabólicas, toxicidade dermatológicas, reações alérgicas e anafilaxia.

Além disso, alguns estudos sugerem que, além dos efeitos sistêmicos, a quimioterapia também interfere na cognição dos pacientes à ela submetidos. Essas alterações, embora pouco conhecidas e menos exploradas, têm recebido atenção especial devido aos impactos que esses efeitos causam na vida daqueles que sobreviveram após um tratamento para o câncer.

Mas o que é cognição?

quimioterapia-e-cognição

As funções cognitivas são constituídas pela memória, raciocínio, atenção, aprendizado, imaginação, linguagem, cálculo e habilidades em espaços visuais. Portanto, essas funções são essenciais na relação do indivíduo consigo mesmo e com o meio em que vive. Alterações com prejuízo cognitivo acarretam consequências diretas, capazes de interferir nas atividades de vida diária, bem como nos seus níveis de independência. Infelizmente, alterações das funções cognitivas são efeitos adversos comumente associados aos agentes quimioterápicos usados no tratamento de tumores sólidos, como no  câncer da mama, no câncer do pulmão, no câncer da próstata e no câncer de ovário.

Como a quimioterapia pode afetar a cognição?

Embora os mecanismos pelos quais a quimioterapia possa interferir na cognição dos pacientes ainda sejam pouco esclarecidos, alguns estudos têm evidenciado esta associação, que pode persistir entre 17 e 34% dos pacientes a longo prazo. Outro estudo sugere que 75% dos pacientes apresentam prejuízo da função cognitiva após terem sido submetidos a tratamento quimioterápico. Logo, tais alterações podem surgir tanto durante, quanto após o término da quimioterapia.
Portanto, é importante entender que há algumas hipóteses que sustentam esta associação. Há hipóteses relacionadas à barreira hematoencefálica, em que os agentes quimioterápicos possam atravessar por esta barreira, aumentando a morte celular com diminuição da divisão celular da zona subventricular do hipocampo, responsáveis pela função cognitiva. Há também possíveis mecanismos relacionados a danos ao DNA, provocando estresse cognitivo com possíveis danos ao DNA neuronal.

Uma outra hipótese está associada à regulação das citocinas. Existem evidências de que os quimioterápicos possam contribuir no aumento de liberação de citocina, com maior probabilidade de problemas cognitivos. Além disso, existem também suposições relacionadas ao reparo neural, que pode estar diminuído em pacientes com câncer, levando a prejuízos nas funções cognitivas. Ainda, são estudados indícios de que neurotransmissores possam estar envolvidos nessa condição, como alterações na dopamina, neurotransmissor importante nas funções executivas e de memória no córtex frontal.
Somado a isso, muitos outros fatores podem atribuir-se ao declínio cognitivo, como o próprio envelhecimento, condições cognitivas prévias, além de alterações hormonais que os tornam difíceis de se distinguir dentro de um contexto clínico.

Você já ouviu falar sobre Chemobrain ou Chemofog?

A associação entre alterações cognitivas e quimioterapia é também conhecida por chemobrain ou chemofog. Estes sinais de alterações possuem uma história muito recente, uma vez que por muitos anos estes danos estavam associados a fatores psicológicos como a depressão e até mesmo a fadiga, e não com a quimioterapia. Entretanto, estudos apontaram declínio cognitivo em diversos domínios, incluindo memória verbal, memória de trabalho, função executiva, atenção, concentração, linguagem e velocidade motora em pacientes submetidos à quimioterapia.

Conclusão

Portanto, tratando-se de alterações que causam grande impacto na qualidade de vida dos pacientes, torna-se necessário mais estudos para que haja futuras abordagens multidisciplinares de tratamento tanto preventivo quanto terapêutico para este problema. As alterações nas funções cognitivas dos pacientes submetidos à quimioterapia são consequências sérias deste tipo de tratamento o que requer cada vez mais pesquisas acerca deste tema.

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