A fisioterapia respiratória é um componente essencial na reabilitação de pacientes idosos com presença da síndrome consumptiva, principalmente em casos de internação, seja em enfermarias ou Unidades de Terapia Intensiva (UTI).
Esta síndrome é particularmente grave para idosos a partir de 70 anos, frequentemente associada a condições como endocardite, uma infecção persistente nas válvulas cardíacas. Também pode ocorrer devido à desnutrição, proveniente de uma alimentação inadequada ou má absorção no metabolismo.
Outras etiologias podem se apresentar com a síndrome consumptiva, por exemplo, pacientes com condições autoimunes e reumatológicas, como a artrite reumatoide, geralmente têm perda de peso não intencional como parte dos sintomas sistêmicos.
A síndrome consumptiva se caracteriza pela redução involuntária de peso superior a 10% em um intervalo de 6 a 12 meses, com sinais como a diminuição da massa muscular, atrofia dos músculos e deficiência de força. Esse quadro leva à depleção de massa magra corporal, sendo um fator crítico para a saúde dos pacientes idosos.
Agora que você entendeu um pouco mais sobre a síndrome consumptiva, vamos explorar a seguir as causas, os impactos e como a fisioterapia pode ajudar a melhorar a condição do paciente. Boa leitura!
Principais causas da síndrome consumptiva
Normalmente relacionada com doenças sistêmicas avançadas, doenças psiquiátricas ou condições de vulnerabilidade social e situações de isolamento social, a síndrome consumptiva é caracterizada pela perda, não intencional, maior que 5% do peso habitual em um período entre 6 a 12 meses.
Quando a perda de peso ultrapassa os 10%, é considerado um estado de desnutrição associado à deficiência humoral e celular mediada. As principais causas incluem neoplasias, distúrbios psiquiátricos, doenças do aparelho digestório, endocrinopatias, afecções reumáticas, infecções, fatores sociais e causas indeterminadas.
Como ocorre a perda de peso em pacientes com síndrome consumptiva
A perda de peso pode ocorrer por três mecanismos diferentes:
- Diminuição da ingestão de alimentos;
- Metabolismo acelerado;
- Aumento da perda de energia.
Entretanto, trata-se de um sintoma de desordem multifatorial, incluindo alteração da ingestão calórica, da absorção e motilidade intestinal, do uso de medicamentos e abuso de substância ilícitas ou produção aumentada de substâncias endógenas.
Também pode estar associada ao processo de envelhecimento, ocorrendo alterações na regulação do apetite. Além disso, naturalmente, há um declínio do paladar e do olfato, contribuindo para a perda ponderal de peso.
Caracterizando a síndrome consumptiva, a perda de peso involuntária pode estar relacionada com o aumento (hiperexia) ou com a diminuição (hiporexia) do apetite.
A hiperexia causa um aumento do gasto energético ou perda de calorias pelas fezes e urinas oriunda de doenças. Já a hiporexia causa a diminuição do apetite oriunda de problemas psiquiátricos entre outras doenças.
Abordagem semiológica
A regra mnemônica de Robbins, que consiste em nove “Ds” de causas de perda de peso, pode ser utilizada para auxiliar no diagnóstico da síndrome consumptiva.
A Medida de Independência Funcional (MIF) também deve ser quantificada, a fim de avaliar o grau de dependência nas Atividades de Vida Diária (AVD’s) e a perda de peso do paciente a partir de instrumentos como Mini Nutritional Assessment (MNA), avaliando o risco de desnutrição dos idosos.
Exame físico, Miniexame do Estado Mental, medidas antropométricas para cálculo do IMC e sinais vitais também devem fazer parte da avaliação diagnóstica.
Impacto na qualidade de vida e funcionalidade do paciente
Pacientes com perda de massa muscular e gordura corporal cursam com diminuição da força e resistência, resultando em fadiga, fraqueza e redução da mobilidade. Assim, há o aumento do risco de quedas e fraturas, além do comprometimento da independência e autonomia.
Além disso, pacientes com síndrome consumptiva podem desenvolver ansiedade, depressão e perda de autoestima, afetando seu estado mental e psicológico.
A intervenção precoce é essencial para reduzir esses impactos, melhorar o estado nutricional e físico, além de promover melhor qualidade de vida e funcionalidade para o paciente.
7 pilares da fisioterapia na síndrome consumptiva
A atuação do fisioterapeuta na síndrome consumptiva é de grande importância, focando na recuperação e reabilitação do paciente. Abaixo, destacamos os 7 principais aspectos dessa abordagem:
1. Exercícios de reabilitação física
O fisioterapeuta introduz exercícios fundamentais, como o treinamento de força, alongamentos e atividades aeróbicas adequadas, sempre personalizados para cada paciente. Isso ajuda a recuperar a funcionalidade e a força do paciente de forma gradual e segura.
2. Fisioterapia respiratória
Pacientes com doenças respiratórias ou infecções pulmonares se beneficiam enormemente da fisioterapia respiratória. Essa abordagem melhora a capacidade pulmonar, prevenindo complicações respiratórias e favorecendo a recuperação.
3. Mobilização precoce
A mobilização precoce é essencial para prevenir complicações como trombose venosa profunda (TVP) e úlceras de pressão, que são comuns devido à imobilização prolongada. A fisioterapia inclui atividades terapêuticas progressivas, como:
- Mobilidade no leito;
- Sentado na beira do leito;
- Ortostase (posição em pé);
- Transferência para poltrona;
- Deambulação (caminhada).
Esse processo visa melhorar a força muscular, flexibilidade articular e aptidão cardiovascular do paciente.
4. Benefícios da Intervenção precoce
Intervir precocemente na recuperação do paciente traz inúmeros benefícios, como:
- Melhora da função respiratória;
- Aumento do nível de consciência;
- Maior independência funcional;
- Ganhos de força e resistência muscular;
- Melhora na flexibilidade articular;
- Aumento da aptidão cardiovascular;
- Melhor desempenho psicológico.
Além disso, essa abordagem acelera a recuperação e pode reduzir o tempo de internamento hospitalar, tornando a fisioterapia essencial na otimização da recuperação funcional.
5. Prevenção de complicações respiratórias
Em pacientes idosos que ficam internados por longos períodos, a fisioterapia ajuda a prevenir complicações respiratórias, como pneumonias, e a reduzir os volumes pulmonares. Isso é feito através de técnicas que melhoram a permeabilidade das vias aéreas e previnem o acúmulo de secreções.
6. Técnicas fisioterapêuticas específicas
A fisioterapia pode incluir técnicas manuais, cinéticas ou posturais que são eficazes para:
- Melhorar o padrão respiratório;
- Controlar a respiração;
- Promover a reexpansão pulmonar;
- Melhorar a troca gasosa, o que previne complicações e melhora o bem-estar do paciente.
7. Abordagem multiprofissional
Para garantir o melhor estado funcional dos pacientes, a fisioterapia deve ser parte de uma abordagem multiprofissional que inclui:
- Controle glicêmico;
- Nutrição adequada;
- Uso seguro de bloqueadores neuromusculares.
A mobilização precoce deve ser priorizada, pois ajuda a mitigar os efeitos da imobilização prolongada e acelera a recuperação, melhorando a funcionalidade geral do paciente.
Conclusão
A síndrome consumptiva representa um grande desafio, especialmente para os idosos hospitalizados. Nesse contexto, a fisioterapia é fundamental, não apenas na recuperação da força muscular e na melhoria da função respiratória, mas também no aumento da qualidade de vida desses pacientes.
Quando aplicada de maneira precoce e personalizada, ela pode acelerar o processo de recuperação, reduzir complicações associadas à internação prolongada e ajudar a restaurar a autonomia dos idosos.
Além disso, a abordagem multiprofissional, com a colaboração de diferentes áreas da saúde, é essencial para garantir um cuidado integral e eficaz.
Com a união de esforços, é possível proporcionar um tratamento mais completo, ajudando o idoso a se recuperar de forma mais rápida e a retomar sua qualidade de vida.
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